quinta-feira, 16 de outubro de 2014

Prece Matutina

Dear Mr. God,
                Há algum tempo que ouvi esta forma de Te tratar. Num filme que me deu muito que pensar e que me levou ao encontro de uma forma nova de encarar os desafios que lanças, pelas mais variadas formas. No caso concreto daquele miúdo, pela doença. Mas nos casos com que me cruzo e que eu próprio vivo, de formas tão diversas e possíveis que é preciso uma atenção redobrada para perceber onde Tu te encontras e o que Tu queres que se possa aprender com aquilo que a vida nos dá.
Sim, Mr. God, eu acredito que as coisas más são dadas pela vida. Não por Ti. És demais Amor para isso. Não serias capaz de provocar sofrimento naqueles que amas. Serias um anti-Deus se isso acontecesse. Mas também não podes impedir. Um Deus “Luís de Matos” não seria desejável porque te tornarias desde logo um “Deus supermercado” onde nos dirigimos só e apenas quando precisamos de alguma coisa. Já assim é tão comum…
Ainda assim, Mr. God, vou percebendo que nos acompanhas e sofres connosco. Vou sentindo que Tu estás lá e não nos deixas sozinhos perante as coisas que nos acontecessem. Mesmo quando te sinto tão silencioso e discreto na minha vida, mesmo quando não me falas tanto ao coração, e Tu sabes tão bem o quão frequente isso é (Oh, se sabes quantas vezes…), o facto é que eu sei que Tu estás ao meu lado. Não se trata de uma ausência, nunca me senti só, isso não. Sinto uma presença Tua discreta, silenciosa, mas ao mesmo tempo consoladora, confiante. Em momentos que para outros foram de dor profunda e que para mim não foram fáceis, senti que estavas comigo, ao meu lado e que permitias que olhasse para elas com uma confiança e uma esperança que, em muitos momentos, me fizeram e fazem pensar que me tornei quase que insensível às dores mais agudas da morte ou da doença. Ainda que me doa não perceber muitas vezes como podem acontecer certas tragédias em tantas Nonôs que por aí andam. Aí pareces ausente. Mas a Tua presença é outra, aquela que atrás te disse saber ser.
Sabes, às vezes condenam-me por escrever tanto. Não percebem a forma como te vou escrevendo e vou falando Contigo. É uma das minhas formas de rezar, de falar conTigo e de partilharmos o que tenho para Te dizer. Não, Mr. God, não quero ser um caçador de likes nem muito menos publicitar uma falsa relação conTigo. Mas quero alimentar este amor que tenho por Ti. E se o partilhar e isso ajudar, nem que seja por um segundo, alguém a perceber que Tu existes, que estás em sinais concretos da minha vida, que Tu existes e que se duvido tantas vezes é da minha incapacidade de Te seguir e não pela Tua existência, então Mr. God, já valeu a pena. Mesmo que me condenem. Mesmo que não me compreendam. Sou um homem de letras e estou convencido que tocas no coração de outros pelas minhas palavras. E há um facto que eu não posso negar nem duvido disto por um segundo: quando Te escrevo, sou capaz de Te dizer mais do que quando estou de joelhos diante de Ti. Porque nessas alturas, deixo que olhes para mim e eu olho para Ti, na simplicidade de um momento a dois. Tantas vezes silencioso. Eu pequenino num corpo maior perante a Tua grandeza naquele pedacinho pequenino de pão tornado Corpo que ali se encontra. Ora na custódia, ora no sacrário. A Tua grandeza exprime-se nisto. Nas palavras que me fazes calar para que possa olhar, como um puto, fascinado pelo grande Amor que Tu és.
Sabes, Mr. God, às vezes gostava de Te ouvir mais. De uma forma extraordinária, além da oração e da escuta da Palavra. Bem sei que nem sempre sou capaz de ir ao encontro e deixar que fales. Talvez porque há muito não te ouça. Desmotivo, baixo os braços. E peco. Peco. Peco. Bem sabes, não é? Tu sabes tudo. No fundo, nem precisava de te escrever. Mas ajuda-me a pensar. Ajuda-me a olhar para mim, a analisar-me, a ver-me no espelho das palavras que te escrevo. E só por isto vale a pena. Mas ecoa muitas vezes em mim uma voz clara e límpida que me vai dando força para perseverar: “No Teu silêncio acolho o Mistério…”. O Mistério de nem sempre te ouvir a falar-me.
E de repente algo me surge…
Meu Filho… Nas tuas Palavras sou Eu que te falo. Tens-me dito muitas coisas. E Eu sei que são sinceras, que vêm do teu coração. Mas como poderás reler no teu último parágrafo, manifesto-me mais do que possas pensar. Precisas de estar mais atento às pequenas coisas e de ser mais fiel…
Entre arrepios a carta termina. Dear Mr. God, acaba de me falar…


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