Dear Mr. God,
Há
algum tempo que ouvi esta forma de Te tratar. Num filme que me deu muito que
pensar e que me levou ao encontro de uma forma nova de encarar os desafios que
lanças, pelas mais variadas formas. No caso concreto daquele miúdo, pela
doença. Mas nos casos com que me cruzo e que eu próprio vivo, de formas tão
diversas e possíveis que é preciso uma atenção redobrada para perceber onde Tu
te encontras e o que Tu queres que se possa aprender com aquilo que a vida nos
dá.
Sim, Mr. God, eu acredito que
as coisas más são dadas pela vida. Não por Ti. És demais Amor para isso. Não
serias capaz de provocar sofrimento naqueles que amas. Serias um anti-Deus se
isso acontecesse. Mas também não podes impedir. Um Deus “Luís de Matos” não
seria desejável porque te tornarias desde logo um “Deus supermercado” onde nos
dirigimos só e apenas quando precisamos de alguma coisa. Já assim é tão comum…
Ainda assim, Mr. God, vou percebendo que nos acompanhas e
sofres connosco. Vou sentindo que Tu estás lá e não nos deixas sozinhos perante
as coisas que nos acontecessem. Mesmo quando te sinto tão silencioso e discreto
na minha vida, mesmo quando não me falas tanto ao coração, e Tu sabes tão bem o
quão frequente isso é (Oh, se sabes quantas vezes…), o facto é que eu sei que
Tu estás ao meu lado. Não se trata de uma ausência, nunca me senti só, isso
não. Sinto uma presença Tua discreta, silenciosa, mas ao mesmo tempo
consoladora, confiante. Em momentos que para outros foram de dor profunda e que
para mim não foram fáceis, senti que estavas comigo, ao meu lado e que
permitias que olhasse para elas com uma confiança e uma esperança que, em
muitos momentos, me fizeram e fazem pensar que me tornei quase que insensível
às dores mais agudas da morte ou da doença. Ainda que me doa não perceber muitas
vezes como podem acontecer certas tragédias em tantas Nonôs que por aí andam. Aí pareces ausente. Mas a Tua presença é
outra, aquela que atrás te disse saber ser.
Sabes, às vezes condenam-me por escrever tanto. Não percebem a forma como
te vou escrevendo e vou falando Contigo. É uma das minhas formas de rezar, de
falar conTigo e de partilharmos o que tenho para Te dizer. Não, Mr. God, não quero ser um caçador de
likes nem muito menos publicitar uma falsa relação conTigo. Mas quero alimentar
este amor que tenho por Ti. E se o partilhar e isso ajudar, nem que seja por um
segundo, alguém a perceber que Tu existes, que estás em sinais concretos da
minha vida, que Tu existes e que se duvido tantas vezes é da minha incapacidade
de Te seguir e não pela Tua existência, então Mr. God, já valeu a pena. Mesmo que me condenem. Mesmo que não me
compreendam. Sou um homem de letras e estou convencido que tocas no coração de
outros pelas minhas palavras. E há um facto que eu não posso negar nem duvido
disto por um segundo: quando Te escrevo, sou capaz de Te dizer mais do que
quando estou de joelhos diante de Ti. Porque nessas alturas, deixo que olhes
para mim e eu olho para Ti, na simplicidade de um momento a dois. Tantas vezes
silencioso. Eu pequenino num corpo maior perante a Tua grandeza naquele
pedacinho pequenino de pão tornado Corpo que ali se encontra. Ora na custódia,
ora no sacrário. A Tua grandeza exprime-se nisto. Nas palavras que me fazes
calar para que possa olhar, como um puto, fascinado pelo grande Amor que Tu és.
Sabes, Mr. God, às vezes
gostava de Te ouvir mais. De uma forma extraordinária, além da oração e da
escuta da Palavra. Bem sei que nem sempre sou capaz de ir ao encontro e deixar
que fales. Talvez porque há muito não te ouça. Desmotivo, baixo os braços. E
peco. Peco. Peco. Bem sabes, não é? Tu sabes tudo. No fundo, nem precisava de
te escrever. Mas ajuda-me a pensar. Ajuda-me a olhar para mim, a analisar-me, a
ver-me no espelho das palavras que te escrevo. E só por isto vale a pena. Mas
ecoa muitas vezes em mim uma voz clara e límpida que me vai dando força para
perseverar: “No Teu silêncio acolho o Mistério…”. O Mistério de nem sempre te
ouvir a falar-me.
E de repente algo me surge…
Meu Filho… Nas tuas Palavras sou Eu
que te falo. Tens-me dito muitas coisas. E Eu sei que são sinceras, que vêm do
teu coração. Mas como poderás reler no teu último parágrafo, manifesto-me mais
do que possas pensar. Precisas de estar mais atento às pequenas coisas e de ser
mais fiel…
Entre arrepios a carta termina. Dear
Mr. God, acaba de me falar…
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