Esta história tem por lugar, Lisboa, a velha cidade sempre cheia de vidas. Vidas que passam pelas ruas, muitas vezes solarengas, onde por vezes o cheiro a café se mistura com aquele ar fresco que vem do mar, ali tão próximo.
Era uma vez um homem. Velho. Decaído. Barbas esfarrapadas. Sentado nos degraus de uma igreja fechada, tem a seu lado um pack de litro de vinho, aberto e quase vazio. Tem as roupas sujas e rotas como as noites que tem passado na rua. Cheira à dor de quem não tem identidade. Chamam-lhe Zé. Mas ninguém sabe ao certo como se chama ou donde é.
Passa os dias a olhar para o vazio da indiferença de por quem ali passa, e mão estendida a ver se alguma misericórdia cai para mais uns goles de tinto, único combustível que o mantém vivo, entre duas tijelas de sopa que lhe vão dando dia sim dia não quando a carrinha cinzenta por ali passa.
Tem por cama um caixote de papelão que sempre o vai resguardando nas noites mais frias, mas, afinal, tem sorte porque podia ser um dos ninguéns de Nova Iorque ou de Paris onde o frio se torna mais difícil de suportar. Mas é um Zé-ninguém de Lisboa, sempre lhe dá outro estatuto e lhe permite não ter de dormir com temperaturas muito abaixo de zero.
Mas o Zé tem uma coisa que atrai a minha atenção. Tem na mão que estende um gesto de beleza. É a humildade de quem sabe precisar sem esperar muito. Só o que chegue. Irá provavelmente embora quando juntar o suficiente para mais uma bezanna, enquanto a sopa não chegar. O Zé não quer muito. Quer o suficiente. E nisso dá-nos uma grande lição. Porque havemos de querer tanto ou até tudo quando, feitas as contas, não nos falta nada?
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