sexta-feira, 10 de outubro de 2014

Fui visitar-te

Olá!
Escrevo estas linhas do meu quarto, depois de regressar de te visitar. Estivemos juntos uns momentos, em silêncio e na vardade tinha tanto para te dizer... Tanto para te contar e uns quantos conselhos para te pedir... E bem sei que os desejarias dar. Mas agora é tarde! O cancro venceu-te e nada podemos fazer contra isso... 

Bem sei que tudo me leva a crer que estás no céu, no paraíso ou lá como chamam a essa coisa que em vida lutaste para merecer... Tinhas uma fé que me espantava... E levaste-me a construir a minha. Ainda me lembro, quando era um miúdo pequenino e me levavas pela mão. Na Igreja, sentávamo-nos à frente e, do alto daqueles bancos, os meus pézitos de menino baloiçavam no ar, dado não chegarem ao chão... E ensinavas-me a mais eloquente das linguagens, a linguagem do silêncio onde podíamos falar com aquele Jesus que dizias ser tão nosso amigo... E quando não percebia alguma coisa, sussurava-te uma pergunta à qual me respondia com ternura e o teu lindíssimo sorriso do qual hoje tenho uma saudade quase mortal...

A tua ausência foi-se tornando um silêncio amargurado porque nunca foi a mesma coisa. Perdi parte da minha jovialidade, parte da minha audácia, parte da minha alegria. Porque um dia fechaste os olhos para o mundo e nunca mais os abriste. Então, rodeado de familiares e amigos, levei-te ao lugar onde te visitei ainda há pouco... E lá ficaste, à minha espera. Porque sei que é ali que um dia serei enterrado. Perto de ti. Assim o desejo. Deitado a olhar para o céu, para a nossa terra, para a serra e para as gentes que são e serão o nosso futuro...


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