Há no silêncio de Deus como que uma nascente de amor que me invade e provoca para sair do engodo que são as coisas deste mundo onde cada encontro com Ele se reveste de uma provocação para saber ler a veracidade e autenticidade das coisas. Apetece-me despir-me e ficar nu, como o jovem de Assis que um dia deixou tudo na praça pública daquela cidade, aos pés daquele pai de quem a materialidade e as aparências eram mais importantes do que a verdade do encontro e auxílio a quem era proscrito, numa sociedade onde a riqueza e o poder tinham demasiada importância.
No fundo, nada de bem diferente dos tempos em que vivemos hoje, onde os vários convites a outras dimensões virtuais, onde a relação interpessoal, directa e real parece escondida atrás de meros monitores e que leva, desde logo, a uma prisão livre, disfarçada em liberdade, sem que não se dê bem por isso e que tem um nome: materialismo informático.
Hoje, alguém dizia que, na aflição, quem te auxilia é quem está ao teu lado e não quem está do lado de lá do ecrã... Esqueceste-te da carteira em casa... Vai lá pedir ao tipo com quem falas no Skype que te empreste dinheiro para o café que acabas de pedir...
Então perguntas-me: "É tudo mau? Mas e aqueles amigos que estão a quilómetros e de quem consigo ter notícias pela net? E aqueles com quem consigo contactar no "chat" do Facebook? E os "Tweets" do Papa? E aquela tua possibilidade de partilhares a tua fé ou estes teus desvarios num blog ou no mural do teu Facebook? Ah... Afinal também usas o Facebook...". Sim, tens razão, nem tudo é mau... Cabe a cada um discernir!
No fundo, nem é tanto aqui que quero chegar...O que quero reflectir é a dependência que isto espelha. Aqui há dias, alguém dizia: "Vais a casa de amigos pela primeira vez. Há 20 anos elogiarias a casa. Hoje, pedes a password do Wireless." A dependência da materialidade está a fazer com que vás a casa de amigos e que, em vez de procurares estar com eles, te agarres ao telemóvel ou ao tablet. Vais almoçar ou jantar com alguém, e mal dás conta que o restaurante tem wifi, desligas da conversa para te ligares ao virtual! Repara só nas esplanadas dos cafés!
Claro que isso não se resume à internet: imagina o jantar em casa: TV ligada, algum assunto que interessa e a conversa à mesa dá lugar à TV. O telemóvel toca, alguém sai da mesa (ou atende logo ali). Sinais da preponderância das máquinas na vida das pessoas. Já poucos dão valor ao que é estar juntos, com pessoas de carne e osso! São, no meu entender, sinais claros de dependência e de materialismo. Toda a gente quer o último telemóvel ou tablet que saiu, toda a gente quer um Home Cinema, toda a gente quer o último grito da moda e ninguém dá importância às relações... E se isso me colocar à frente dos outros... Melhor ainda!
Por isso me é cada vez mais clara esta necessidade de largar tudo na praça pública. Como o jovem de Assis, que por sinal a Igreja canonizou. Porque há oito séculos que se percebeu esta necessidade de redescobrir o essencial da vida, de redescobrir Deus e o outro. Hoje, é necessário voltar a dar este passo! Não apenas para O partilhar no Facebook em frases feitas, historietas moralistas ou em fotos de férias conjuntas. Caso contrários, correremos o risco de fingirmos estar felizes ou de "caçar likes" nas redes sociais sem acreditarmos verdadeiramente em nada do que partilhamos. Coisas plásticas que um dia a nossa memória fará questão de colocar no Ecoponto...
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