São três da tarde e é sexta-feira. O céu fica escuro, pesadas gotas de água até agora sustidas em nuvens cinzentas caem. Um grande silêncio reina. Houve um grito. Um "Não!" prolongado e sofrido, quase que uivado. Uma cabeça a decair sobre o peito, enquanto os olhos, semi-cerrados, deixam de ter qualquer laivo de vida. Uma delas, a mais nova, caiu no mesmo instante, como uma coluna que implode e cai sobre si-mesma. Verticalmente. A outra, a mais velha, esconde-se agarrando-se ao peito de um rapaz que olha, incrédulo ainda, perante os acontecimentos das últimas horas. De olhar vazio, abraça aquela mulher, acariciando-lhe o cabelo como uma criança acaricia a mãe e parece ver-se naquele olhar a seguinte pergunta: "Como é que isto veio a acontecer?". Em letargia, mantém-se de pé.
E chove, agora ferozmente. Como nunca até agora se vira chover. Gotas pesadas, espessas, enormes até. E dos olhos daquele trio de gente entorpecida pela dor e que teima em ficar por ali quando todos já foram embora, cai uma outra chuva. Dolorosa, serena, sofrida, silenciosa. Paulatinamente, o corpo suspenso fica mais frio. O sangue é lavado pela água que do céu cai sobre a terra. E chove. Continua a chover. Aumentam as trevas, diminui a esperança. Aumenta o silêncio, diminui a fé. Aumenta a dor, diminui a humanidade.
É o fim aparente de uma história, naquele quadro dramático. Daí a umas horas, rolará uma pedra. Ele ficará deitado sobre uma pedra, embrulhado à pressa num lençol, sem tempo sequer para ser perfumado, sem tempo para honras, na escuridão de um momento que parecerá definitivo. Só que Ele é Filho de Deus. E já poucos contavam com isso...
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