Nota Introdutória
Escolher estudar a
figura de São Jerónimo como Grande Testemunho de fé é abraçar a importância de
reler os acontecimentos da Patrística à luz de uma importância crescente dos
mesmos para a edificação da Igreja. Com efeito, a importância da obra dos
padres da Igreja é muito maior do que um simples estudo exegeta na medida em
que implicou uma vida de entrega e de estudo prévio nas mais variadas áreas, da
linguística até à metodologia, provando, assim, que a fé se pode viver no
estudo da Teologia, para além do contacto com o Povo de Deus, que é a Igreja.
São Jerónimo: estudo biográfico
Eusebius Hieronymus, nome completo de Jerónimo,
nasceu cerca do ano 346, numa aldeia nas fronteiras do Império Romano, perto da
zona da Dalmácia e da Panónia, local que em 376 foi arrasado pelos Godos e
desapareceu do mapa.
É pouco provável que tenha sido batizado em
criança, ainda que pertencesse a uma família cristã, tendo recebido a educação
básica na sua aldeia e se ter mudado para Roma com cerca de 16 anos para lá
completar a sua formação, acompanhado por Bonoso, seu amigo de infância. Lá,
foi discípulo de Elio Donato, ilustre gramático e lá começou a copiar as
grandes obras da Literatura Clássica, mormente as de Cícero e de Virgílio,
constituindo uma biblioteca e alimentando nele a influência de autores
clássicos, pela qual mais tarde será criticado.
Estudou gramática e retórica e contactou com uma
vida boémia, visitando monumentos cristãos e foi batizado ainda em Roma embora
não haja alusões claras deste evento de sua vida na sua obra.
Terminados os estudos, mudou-se com Bonoso para
Tréveris, na Gália, onde residia o imperador Valentiniano I, contactando com a
corte na esperança de iniciar uma carreira administrativa. Este projeto vê-se
contudo gorado pela atração que Jerónimo sente ao encontrar-se com a vida
monástica por meio de Atanásio de Alexandria, que entretanto chegara a
Tréveris, exilado. É graças a ele que Jerónimo se começa a interessar pela
literatura cristã, continuando um apaixonado pela cópia de livros, ocupação
essa que ele levará até ao final dos seus dias.
Cerca de 370 volta brevemente à sua terra natal
mas depressa se junta com alguns companheiros para fazer uma experiência de
ascetismo, que capta de tal forma o seu coração que nem o fracasso desta
primeira experiência de vida comunitária o fez desistir de uma peregrinação
rumo ao Oriente monástico. É ele próprio, na carta a Rufino que relata o seu
itinerário assim como as preciosas ajudas que foi recebendo pelo caminho,
mormente a do presbítero Evagro que o acolheu quando chegou a Antioquia. Depois
disto, fez uma experiência enquanto anacoreta no deserto, levando apenas a
coleção de livros que começara em Roma e aproveitando para aprofundar os seus
conhecimentos de Grego. Mas por diversas razões, entre as quais distúrbios
decorrentes da controvérsia provocada pelo arianismo, fizeram com que esta
experiência durasse menos de dois anos e que Jerónimo regressa a Antioquia, já
com a Vida de Paulo, primeira obra
hagiográfica, escrita.
No entanto, o ideal ascético continuava a
fervilhar em Jerónimo e, em consequência disso, foi ordenado presbítero por
Paulino de Antioquia, sob o compromisso de não assumir quaisquer compromissos
pastorais a fim de não perder a sua liberdade monástica. Com um interesse cada
vez maior por estudos bíblicos, teve aulas de exegese e, em 379, partiu para
Constantinopla, onde prosseguiu os seus estudos, sob orientação de Gregório de
Nazianzeno, aprofundando o seu interesse por Orígenes e começou o seu trabalho
como tradutor a partir das homilias do mestre alexandrino. Motivos relacionados
com o fracasso de uma ideia de Paulino de Antioquia no Concílio de 381 levam
entretanto Jerónimo a Roma, com o mesmo Paulino e Epifânio.
Em Roma, Jerónimo teve a vida facilitada pela
autoridade dos seus protetores orientais, pela sua profissão ascética e pelo
prestígio da sua ciência bíblica. Logo que chega, é apresentado ao Papa Dâmaso
que o toma por secretário e confidente. A isto acrescia uma participação em tertúlias
com viúvas aristocratas, o que o levou a aprofundar os seus conhecimentos de
hebraico com a ajuda de um rabino. Começou também a ensinar a língua sagrada às
suas benfeitoras, que provavelmente teriam já conhecimentos basilares de grego.
Entretanto, a convite do Papa Dâmaso, homem já de
idade avançada mas muito culto e verdadeiro humanista, Jerónimo começa uma
série de revisões de traduções da Bíblia, embora não descurando a sua vida
ascética em comunidade, traduzindo simultaneamente Orígenes e Dídimo o Cego,
revendo a tradução do Saltério e começando, ainda, um comentário sobre o
Eclesiastes. Estes trabalhos, porém, não o impediram de realizar o seu desejo
de se tornar um verdadeiro asceta, crítico da vida acomodada e ociosa de muitos
membros do clero romano, o que lhe valeu uma série de opositores.
O seu trabalho com as aristocratas romanas atrás
referidas continuou e valeu-lhe a antipatia de parte do clero da cidade, ao
ponto de, aquando da morte do Papa Dâmaso (11 de Dezembro de 384) a sua
situação em Roma se tornar insustentável, vendo-se obrigado a abandonar a
cidade e embarcando em Óstia no Verão seguinte, rumo a Oriente, juntando-se na
cidade de Antioquia a outros grupos que tinham deixado Roma. Foi com esses
grupos que partiu para uma peregrinação, organizada por Paulino, para conhecer
lugar santos e mosteiros e monges no Egito. Terminada a peregrinação, Jerónimo
instala-se em Belém e 386 e constituiu dois mosteiros com ajuda de uma das
aristocratas de Roma, Paula, que viera com ele e se instalara, também, em
Belém. Ambos dirigiram a vida cenobítica: o mosteiro feminino, com numerosas
vocações, perto da Basílica da Natividade, albergava três classes de
religiosas, consoante a classe social, ao passo que o masculino, de mais parcas
vocações, foi construído com vista para a dita Basílica e para o Túmulo de
Raquel. A proximidade da biblioteca de Orígenes e Eusébio de Cesareia do
mosteiro constituía, para Jerónimo, uma fonte de consulta muito rica e este
período favoreceu muito a actividade literária de Jerónimo, já homem maduro, e
aqui se intensificou a tarefa de tradução da Bíblia, a par e passo com a
produção de hagiografia monástica e história eclesiástica, manifestando uma
clara preferência pelo Antigo Testamento e pelo hebraico face ao Novo Testamento
e ao grego.
Começa então uma revisão do Antigo Testamento,
com o Saltério, os Livros de Job e de Salomão, a partir do hebraico. É graças à
sua grande actividade epistolar que se consegue, hoje, documentar a sua
actividade no mosteiro de Belém. Ao mesmo tempo, Jerónimo tem uma intensa
actividade no ensino dos catecúmenos, e na iniciação de alguns jovens à língua
latina.
Afastado da sua actividade de tradutor por causa
da controvérsia com Rufino e da crise origenista, chega a ser excomungado mas,
três anos depois é reconciliado. Estamos em 397, ano de que também data a
relação epistolar com Agostinho de Hipona. Os seus últimos anos de vida são
marcados por preocupações devidas à invasão dos hunos e de ordem económica,
dado o desaparecimento da fortuna pessoal de Paula, que entretanto morre. Em
405, Jerónimo concluí a tradução da Bíblia hebraica e continuou a sua produção
literária de comentários sobre os profetas. A 30 de Setembro de 419, Jerónimo
morre. A sua memória perpetuar-se-á no Ocidente por ter revelado ao mundo
latino, por via da sua vasta produção de traduções, a riqueza das bibliotecas
gregas e hebraicas, pela sua vasta cultura literária e pela sua grande
sensibilidade espiritual monástica e exegética, provavelmente herdadas de
Orígenes e da sua influência para Jerónimo.
Antes da sua tarefa de exegese, Jerónimo traduziu e
compôs alguns instrumentos de trabalho importantes, imprescindíveis para a sua
tarefa exegética. Como atrás referido, num determinado momento da sua vida,
Jerónimo foi confrontado com um pedido do Papa Dâmaso: traduzir a Sagrada
Escritura para latim. Só depois de escolher que original seguir, o grego, por
pensar que era a que mais respeitava a Revelação, é que Jerónimo começou o seu
trabalho. Assim nasceu a Vulgata, a
qual Jerónimo quis que se revestisse de uma compreensibilidade por parte não só
das camadas cultas mas sim de todos os homens. A segunda tarefa constou da
produção de algumas obras que compendiavam dados históricos, etimologia de
nomes hebraicos, entre outros assuntos. Munido destas “ferramentas”, Jerónimo
pôde então dedicar-se à exegese.
Por outro lado, Jerónimo assumiu sempre o seu
temperamento, a sua história pessoal, a sua cultura e as suas convicções
doutrinais e eclesiais nas suas obras, cunho aliás bastante patente na obra em
estudo. E como tal, para ele é imprescindível que haja uma análise das várias
fontes antes de produzir qualquer comentário.
Nota Conclusiva
Seria muito pouco verosímil não ler
em Jerónimo um grande testemunho de fé para o seu tempo. A entrega ao trabalho
que desenvolveu e a sua importância no âmbito da Teologia Patrística e do
estudo acérrimo da Sagrada Escritura fazem dele uma peça fundamental do
Cristianismo nascente, ao lado de outras figuras tão importantes como são os
padres da Igreja, estudiosos ou outros membros da Igreja nascente, mais
dedicados a uma pastoral em torno das verdades fundamentais da fé. Não sendo
nenhum membro ativo dos grandes Concílios (Eféso, Calcedónia…), Jerónimo foi
contudo um grande “preparador” dos mesmos, desenvolvendo a sua leitura e a sua
exegese em torno de uma metodologia sua, com materiais seus, e com um
contributo sem dúvida que fundamental para a preparação das grandes discussões
teológicas que os séculos seguintes iriam ter. Daí que seja, sem dúvida, um
grande testemunho de fé no Século V.
Bibliografia
Jerôme, S. (1977). Commentaire
sur Saint Matthieu (Vol. II). Paris: Sources Chrétiennes.
Jerónimo. (1999). Comentário Al Evangelio de Mateo.
Madrid: Ciudad Nueva.
Jerónimo. (2002). Obras Completas (Vol. II).
Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos.

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