segunda-feira, 10 de junho de 2013

São Jerónimo

Um pequeno trabalho para a Faculdade, que partilho porque penso que pode ser giro quem por aqui passa poder conhecer os Santos da nossa História...



Nota Introdutória

            Escolher estudar a figura de São Jerónimo como Grande Testemunho de fé é abraçar a importância de reler os acontecimentos da Patrística à luz de uma importância crescente dos mesmos para a edificação da Igreja. Com efeito, a importância da obra dos padres da Igreja é muito maior do que um simples estudo exegeta na medida em que implicou uma vida de entrega e de estudo prévio nas mais variadas áreas, da linguística até à metodologia, provando, assim, que a fé se pode viver no estudo da Teologia, para além do contacto com o Povo de Deus, que é a Igreja.

São Jerónimo: estudo biográfico
Eusebius Hieronymus, nome completo de Jerónimo, nasceu cerca do ano 346, numa aldeia nas fronteiras do Império Romano, perto da zona da Dalmácia e da Panónia, local que em 376 foi arrasado pelos Godos e desapareceu do mapa.
É pouco provável que tenha sido batizado em criança, ainda que pertencesse a uma família cristã, tendo recebido a educação básica na sua aldeia e se ter mudado para Roma com cerca de 16 anos para lá completar a sua formação, acompanhado por Bonoso, seu amigo de infância. Lá, foi discípulo de Elio Donato, ilustre gramático e lá começou a copiar as grandes obras da Literatura Clássica, mormente as de Cícero e de Virgílio, constituindo uma biblioteca e alimentando nele a influência de autores clássicos, pela qual mais tarde será criticado.
Estudou gramática e retórica e contactou com uma vida boémia, visitando monumentos cristãos e foi batizado ainda em Roma embora não haja alusões claras deste evento de sua vida na sua obra.
Terminados os estudos, mudou-se com Bonoso para Tréveris, na Gália, onde residia o imperador Valentiniano I, contactando com a corte na esperança de iniciar uma carreira administrativa. Este projeto vê-se contudo gorado pela atração que Jerónimo sente ao encontrar-se com a vida monástica por meio de Atanásio de Alexandria, que entretanto chegara a Tréveris, exilado. É graças a ele que Jerónimo se começa a interessar pela literatura cristã, continuando um apaixonado pela cópia de livros, ocupação essa que ele levará até ao final dos seus dias.
Cerca de 370 volta brevemente à sua terra natal mas depressa se junta com alguns companheiros para fazer uma experiência de ascetismo, que capta de tal forma o seu coração que nem o fracasso desta primeira experiência de vida comunitária o fez desistir de uma peregrinação rumo ao Oriente monástico. É ele próprio, na carta a Rufino que relata o seu itinerário assim como as preciosas ajudas que foi recebendo pelo caminho, mormente a do presbítero Evagro que o acolheu quando chegou a Antioquia. Depois disto, fez uma experiência enquanto anacoreta no deserto, levando apenas a coleção de livros que começara em Roma e aproveitando para aprofundar os seus conhecimentos de Grego. Mas por diversas razões, entre as quais distúrbios decorrentes da controvérsia provocada pelo arianismo, fizeram com que esta experiência durasse menos de dois anos e que Jerónimo regressa a Antioquia, já com a Vida de Paulo, primeira obra hagiográfica, escrita.
No entanto, o ideal ascético continuava a fervilhar em Jerónimo e, em consequência disso, foi ordenado presbítero por Paulino de Antioquia, sob o compromisso de não assumir quaisquer compromissos pastorais a fim de não perder a sua liberdade monástica. Com um interesse cada vez maior por estudos bíblicos, teve aulas de exegese e, em 379, partiu para Constantinopla, onde prosseguiu os seus estudos, sob orientação de Gregório de Nazianzeno, aprofundando o seu interesse por Orígenes e começou o seu trabalho como tradutor a partir das homilias do mestre alexandrino. Motivos relacionados com o fracasso de uma ideia de Paulino de Antioquia no Concílio de 381 levam entretanto Jerónimo a Roma, com o mesmo Paulino e Epifânio.
Em Roma, Jerónimo teve a vida facilitada pela autoridade dos seus protetores orientais, pela sua profissão ascética e pelo prestígio da sua ciência bíblica. Logo que chega, é apresentado ao Papa Dâmaso que o toma por secretário e confidente. A isto acrescia uma participação em tertúlias com viúvas aristocratas, o que o levou a aprofundar os seus conhecimentos de hebraico com a ajuda de um rabino. Começou também a ensinar a língua sagrada às suas benfeitoras, que provavelmente teriam já conhecimentos basilares de grego.
Entretanto, a convite do Papa Dâmaso, homem já de idade avançada mas muito culto e verdadeiro humanista, Jerónimo começa uma série de revisões de traduções da Bíblia, embora não descurando a sua vida ascética em comunidade, traduzindo simultaneamente Orígenes e Dídimo o Cego, revendo a tradução do Saltério e começando, ainda, um comentário sobre o Eclesiastes. Estes trabalhos, porém, não o impediram de realizar o seu desejo de se tornar um verdadeiro asceta, crítico da vida acomodada e ociosa de muitos membros do clero romano, o que lhe valeu uma série de opositores.
O seu trabalho com as aristocratas romanas atrás referidas continuou e valeu-lhe a antipatia de parte do clero da cidade, ao ponto de, aquando da morte do Papa Dâmaso (11 de Dezembro de 384) a sua situação em Roma se tornar insustentável, vendo-se obrigado a abandonar a cidade e embarcando em Óstia no Verão seguinte, rumo a Oriente, juntando-se na cidade de Antioquia a outros grupos que tinham deixado Roma. Foi com esses grupos que partiu para uma peregrinação, organizada por Paulino, para conhecer lugar santos e mosteiros e monges no Egito. Terminada a peregrinação, Jerónimo instala-se em Belém e 386 e constituiu dois mosteiros com ajuda de uma das aristocratas de Roma, Paula, que viera com ele e se instalara, também, em Belém. Ambos dirigiram a vida cenobítica: o mosteiro feminino, com numerosas vocações, perto da Basílica da Natividade, albergava três classes de religiosas, consoante a classe social, ao passo que o masculino, de mais parcas vocações, foi construído com vista para a dita Basílica e para o Túmulo de Raquel. A proximidade da biblioteca de Orígenes e Eusébio de Cesareia do mosteiro constituía, para Jerónimo, uma fonte de consulta muito rica e este período favoreceu muito a actividade literária de Jerónimo, já homem maduro, e aqui se intensificou a tarefa de tradução da Bíblia, a par e passo com a produção de hagiografia monástica e história eclesiástica, manifestando uma clara preferência pelo Antigo Testamento e pelo hebraico face ao Novo Testamento e ao grego.
Começa então uma revisão do Antigo Testamento, com o Saltério, os Livros de Job e de Salomão, a partir do hebraico. É graças à sua grande actividade epistolar que se consegue, hoje, documentar a sua actividade no mosteiro de Belém. Ao mesmo tempo, Jerónimo tem uma intensa actividade no ensino dos catecúmenos, e na iniciação de alguns jovens à língua latina.
Afastado da sua actividade de tradutor por causa da controvérsia com Rufino e da crise origenista, chega a ser excomungado mas, três anos depois é reconciliado. Estamos em 397, ano de que também data a relação epistolar com Agostinho de Hipona. Os seus últimos anos de vida são marcados por preocupações devidas à invasão dos hunos e de ordem económica, dado o desaparecimento da fortuna pessoal de Paula, que entretanto morre. Em 405, Jerónimo concluí a tradução da Bíblia hebraica e continuou a sua produção literária de comentários sobre os profetas. A 30 de Setembro de 419, Jerónimo morre. A sua memória perpetuar-se-á no Ocidente por ter revelado ao mundo latino, por via da sua vasta produção de traduções, a riqueza das bibliotecas gregas e hebraicas, pela sua vasta cultura literária e pela sua grande sensibilidade espiritual monástica e exegética, provavelmente herdadas de Orígenes e da sua influência para Jerónimo.
Antes da sua tarefa de exegese, Jerónimo traduziu e compôs alguns instrumentos de trabalho importantes, imprescindíveis para a sua tarefa exegética. Como atrás referido, num determinado momento da sua vida, Jerónimo foi confrontado com um pedido do Papa Dâmaso: traduzir a Sagrada Escritura para latim. Só depois de escolher que original seguir, o grego, por pensar que era a que mais respeitava a Revelação, é que Jerónimo começou o seu trabalho. Assim nasceu a Vulgata, a qual Jerónimo quis que se revestisse de uma compreensibilidade por parte não só das camadas cultas mas sim de todos os homens. A segunda tarefa constou da produção de algumas obras que compendiavam dados históricos, etimologia de nomes hebraicos, entre outros assuntos. Munido destas “ferramentas”, Jerónimo pôde então dedicar-se à exegese.
Por outro lado, Jerónimo assumiu sempre o seu temperamento, a sua história pessoal, a sua cultura e as suas convicções doutrinais e eclesiais nas suas obras, cunho aliás bastante patente na obra em estudo. E como tal, para ele é imprescindível que haja uma análise das várias fontes antes de produzir qualquer comentário.

Nota Conclusiva

Seria muito pouco verosímil não ler em Jerónimo um grande testemunho de fé para o seu tempo. A entrega ao trabalho que desenvolveu e a sua importância no âmbito da Teologia Patrística e do estudo acérrimo da Sagrada Escritura fazem dele uma peça fundamental do Cristianismo nascente, ao lado de outras figuras tão importantes como são os padres da Igreja, estudiosos ou outros membros da Igreja nascente, mais dedicados a uma pastoral em torno das verdades fundamentais da fé. Não sendo nenhum membro ativo dos grandes Concílios (Eféso, Calcedónia…), Jerónimo foi contudo um grande “preparador” dos mesmos, desenvolvendo a sua leitura e a sua exegese em torno de uma metodologia sua, com materiais seus, e com um contributo sem dúvida que fundamental para a preparação das grandes discussões teológicas que os séculos seguintes iriam ter. Daí que seja, sem dúvida, um grande testemunho de fé no Século V.

Bibliografia
Jerôme, S. (1977). Commentaire sur Saint Matthieu (Vol. II). Paris: Sources Chrétiennes.
Jerónimo. (1999). Comentário Al Evangelio de Mateo. Madrid: Ciudad Nueva.
Jerónimo. (2002). Obras Completas (Vol. II). Madrid: Biblioteca de Autores Cristianos.

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