segunda-feira, 10 de junho de 2013

Santa Rita de Cássia




Nota Introdutória:
Santa Rita de Cássia é uma das santas mais veneradas e amadas no hoje da nossa Igreja. Ela é objeto de uma extraordinária devoção popular, porque amada pelo povo que a sente muito perto pela sua espetacular "normalidade" de existência quotidiana por ela vivida, primeiro como esposa e mãe, depois como viúva e enfim como monja agostiniana.
Foi por causa desta “normalidade” que escolhi abordar a figura de Santa Rita de Cássia neste último trabalho. É que se de história da Igreja contemporânea se tratasse, um dos Testemunhos de Fé que escolheria seria sem dúvida o do Beato João Paulo II, de cuja data de canonização se tem falado nestes dias. A ele se atribui o texto “Precisamos de Santos”, que fala precisamente na normalidade que é necessária aos santos de que a Igreja precisa.

Testemunho de Fé: Santa Rita de Cássia
Antonio Mancini e Amata Serri viviam numa pequena povoação chamada Roccaporena, no centro da península itálica. Formavam um casal muito benquisto no seu meio, por causa de suas virtudes, dado que a ocupação diária do casal, para além das horas de trabalho no campo, era de visitar os vizinhos mais necessitados, levando-lhes ajuda não só material mas ainda espiritual. Faltava-lhes contudo um filho para que fossem plenamente realizados e por isso, sendo um casal muito piedoso, oravam incessantemente a Deus para que lhes concedesse um herdeiro.
A 22 de maio de 1381, nasceu-lhes finalmente uma filha, que foi batizada em Santa Maria dos Pobres, em Cássia, dado não haver batistério na aldeia onde viviam, e a que deram o nome de Rita, diminutivo de Margarida (Margherita, em italiano).
            Rita era para seus pais um dom de Deus, recompensa pela sua fé e orações, de tal forma que eles se esmeravam por educá-la na fé da Igreja. Iletrados, procuravam porém transmitir à criança seus saberes acerca da vida de Jesus Cristo, da Virgem Maria e dos santos.
            Apenas chegada à idade da razão, começam a aparecer em Rita os primeiros sinais de virtude que, sob influência da graça divina, se iam desenvolvendo na pequena Rita, que era uma criança, branda, respeitadora e obediente para com seus pais, a quem amava profundamente. Os ensinamentos que recebeu da parte dos seus progenitores levaram-na a optar, aos 8 anos de idade, por uma consagração da sua virgindade a Jesus, esposo das virgens. A devoção de seus pais passou para a filha a quem foi permitido ter um oratório dentro de casa, onde Rita passava muito tempo a meditar e a penitenciar-se.
            Quando, por volta dos 16 anos, pensava em confirmar definitivamente a sua consagração a Jesus Cristo por meio dos votos perpétuos. Rita foi contrariada por seus pais, que outras ambições tinham para ela, embora chegasse a pedir, de joelhos, licença para entrar no convento. A decisão estava, contudo tomada e seus pais resolveram dá-la em casamento a um jovem que tinha pedido a sua mão. Não se sabe exatamente qual a idade de Rita nessa época; certos autores dizem que tinha 18 anos. Rita foi obediente, casou-se.
            O matrimónio revelou-se uma etapa difícil para a jovem: o seu marido embriagava-se com muita frequência, envolvendo-se em lutas e, ao chegar em casa, violentava a esposa. Há relatos de uma ocasião em que Rita esteve à beira da morte por causa da violência doméstica que sofria. Além disso, muitas foram as vezes em que Rita não pôde ir à igreja proibida e impedida pelo marido. Porém, a jovem rezava pelo cônjuge diante do crucifixo, pedindo pela sua conversão. Durante o seu matrimónio, Rita foi uma mulher preocupada com o bem-estar de marido e, ainda que consciente do caráter violento deste, sofria. Nessas ocasiões, rezava em silêncio, oferecendo os seus sofrimentos a Deus. A sua bondade era tão visível que acabou por levar o seu marido à conversão. Passado um tempo, e perseverando Rita na oração, o seu marido colocou-se a seus pés, pediu perdão a Deus e implorou o perdão da esposa, mudando também tanto a sua vida como seus costumes.
Do seu casamento, Rita e o marido tiveram dois filhos: Tiago Antonio e Paulo Maria, ambos educados na fé por seus pais. Era ainda frequente que saíssem de casa com a mãe para visitar os enfermos e os pobres.

Em 1402, dá-se uma volta grande na vida de Rita: a 19 e 25 de março, respetivamente, morrem seu pai e sua mãe, ambos com noventa anos. Pouco tempo depois, alguns antigos inimigos de seu marido assassinam-no, por vingança. Os filhos, já crescidos, e influenciados por amigos, planeiam vingar a morte do pai. Rita, preocupada com a sede de vingança de seus filhos, pede a Deus que lhes tirasse esse desejo, ou, se fosse sua vontade que eles morressem, que ao menos lhes obtivesse a salvação, pelo que não morressem assassinos. Deus ouviu de novo as suas preces e ambos adoeceram. Rita cuidou deles com amor mas, depois de pouco tempo, Tiago Antonio e Paulo Maria morreram. A mãe carregou no coração a grande dor da perda dos pais, do marido e dos filhos sem perder a fé. Perdoou, inclusivamente os assassinos de seu marido de forma pública.
Sozinha no mundo, Rita transformou-se numa mulher de oração. Além do trabalho doméstico, ela continuava a visitar os enfermos e os pobres. Participava da missa no mosteiro das agostinianas. Um dia, procurou a superiora e pediu-lhe para ingressar na ordem, mas não foi aceite. Por três vezes Rita pediu para ser admitida no mosteiro, e por três vezes ouviu o “não” da superiora, até que acabou por ser aceite.
            Ao ser admitida no convento, a primeira coisa que Rita fez, foi repartir entre os pobres todos os bens que possuía. Livre dos empecilhos terrenos, admirável era a sua obediência, profunda era a sua humildade, grandes eram as suas mortificações e penitências. Para colocar à prova a obediência da noviça, a superiora do convento ordenou-lhe que regasse de manhã e à tarde um galho seco, provavelmente um ramo de videira ressequido e já destinado ao fogo. Rita não ofereceu dificuldade alguma, e de manhã e de tarde, com admirável simplicidade, cumpria essa tarefa, enquanto as irmãs a observavam com irónico sorriso. Isso durou cerca de um ano, segundo certas biografias da santa.
            Na Quaresma de 1443, veio pregar a Cássia São Tiago de La Marca. O seu sermão da paixão sensibilizou profundamente Rita, que comparecera com as outras religiosas para ouvir a pregação. Voltando ao convento, profundamente emocionada com o que ouvira, prostrou-se diante da imagem do crucifixo e suplicou ardentemente a Jesus que lhe concedesse participar de suas dores. E eis que um espinho se destacou da coroa do crucifixo, veio a ela e entrou tão profundamente em sua testa que a fez cair desmaiada e quase agonizante. Quando voltou a si, a ferida lá estava, atestando o doloroso prodígio. A chaga de Rita converteu-se depois numa ferida purulenta e fétida, de maneira que Rita teve de ser fechada numa cela distante, onde uma religiosa lhe levava o necessário para viver. Ela suportou a ferida durante 15 anos.
            Em 1450 foi celebrado o jubileu em toda a Cristandade e como algumas irmãs preparavam-se para ir a Roma, Rita manifestou um ardente desejo de as acompanhar, mas seu estado de saúde agravava-se cada vez mais devido à ferida que o espinho lhe tinha deixado na testa. As irmãs acharam então que Rita não deveria ir. Foi então que a religiosa pediu a Deus para a ferida desaparecer. Mais uma vez atendido o pedido, Rita conseguiu acompanhar as irmãs agostinianas a Roma, com grande proveito para sua alma. Mas logo que voltou da viagem a ferida reapareceu a par de outra enfermidade incurável que lhe causava um grande sofrimento.
            Incapaz de se alimentar, durante os últimos dias de sua vida Rita alimentava-se apenas da Sagrada Hóstia. No meio das suas dores, que atormentavam o seu corpo, ela conservava a alegria do espírito e o sorriso estava sempre no seu rosto. A doença da Santa piorava a cada dia e as dores tinham-se tornado insuportáveis. Com orações e santas aspirações Rita preparou-se para receber os sacramentos e, com 78 anos de idade e 40 de vida religiosa, faleceu Santa Rita em Cássia, no velho Convento das Agostinianas, no dia 22 de maio de 1457, depois de ter recebido com muita piedade os últimos sacramentos.

Nota conclusiva:
            Ao longo das leituras que fiz (somente duas obras porque o tempo escasseou e quis entregar o trabalho a horas), muitos relatos de milagres encontrei, a par de alguns famosos que conheço da minha vida espiritual. Delas me procurei desviar, para que a factualidade deste trabalho tivesse o maior rigor científico possível. Contudo, é muito difícil separar o “trigo do joio” e abster-se totalmente de referências de fé, dados alguns acontecimentos que marcam a vida de Santa Rita de Cássia. Daí a referência a conversões tão marcadamente associadas à intervenção divina, assim como alguns milagres relatados ao longo da exposição que fiz.

Bibliografia
Agostinho, J. (1931). A Santa dos Impossíveis. Lisboa: Parceria António Maria Pereira.

Silva, M. E. (1929). Vida e milagres da gloriosa Santa Rita de Cássia da Ordem de Santo Agostinho. Braga: Casa do Globo.

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