segunda-feira, 10 de junho de 2013

São Frei Gil de Santarém



Nota introdutória

            A escolha de São Frei Gil para tema deste trabalho prende-se com a vontade de conhecer melhor aquele cujas relíquias se veneram na Sé de Santarém onde repousam num relicário, em lugar de destaque na Sacristia.
            Sendo um dos santos cuja memória se venera na Diocese de onde sou, fez-me por isso todo o sentido estudar o testemunho de santidade de Frei Gil e perceber como, no seu tempo, ele foi testemunho de Deus no meio dos homens.
Se Frei Gil de Santarém é um santo a priori pouco conhecido, na verdade, ele é um santo popular e dos mais singulares do nosso país. O seu lado popular prende-se com a veneração e a invocação do santo como verdadeiro homem de Deus, taumaturgo, sábio, sendo inclusive tido como “um apóstolo do seu tempo”[1], sendo que a sua existência e forma de agir são, de facto, históricas, como de resto, adiante, se verá.
A singularidade de Frei Gil prende-se com o facto do mesmo povo, em muitos aspetos, ter envolvido a sua vida em lendas de estilo medieval e bastante raras, surpreendentes ou até inverosímeis, em que embarcaram autores conceituados de história nem sempre criticas, lendas essas que chegam a confundir religião com superstição.

1.       D. Gil Rodrigues Valadares

Gil nasceu em Vouzela, no distrito de Viseu provavelmente em 1190, numa casa onde hoje há um hospital e um asilo. Isso faz com que alguns lhe chamem São Frei Gil de Vouzela. Outros autores chamam-lhe São Frei Gil de Santarém na medida em que foi em Santarém que viveu e morreu, santamente, num convento dominicano de que hoje pouco resta. Há ainda quem lhe chame São Frei Gil de Portugal dada a projeção que teve a nível internacional, sendo inclusive o seu túmulo ponto de paragem para os peregrinos do Caminho de Santiago.
Filho de Dona Maria Gil e de dom Rodrigo, D. Gil Rodrigues Valadares teve outros irmãos, havendo referências de pelo menos quatro, dois cujos nomes se conhecem, um terceiro que terá sido deão da Sé de Lisboa e um quarto de que apenas se sabe a existência.[2] 
Desde cedo, D. Gil mostra ser um rapaz inteligente e com muita aptidão para as letras, sendo que vai frequentar o mosteiro de Santa Cruz, em Coimbra, onde estuda filosofia e medicina, ganhando a fama de ser um estudante com muito valor, embora um pouco dissipado, dado a sua tenra idade.
Foi para aprofundar os seus estudos que D. Gil se muda para Paris, onde os saberes mais avançados da época se encontravam. Alguns autores defendem que tinha já algumas prebendas eclesiásticas quando deixou o país. Outros vão mais longe afirmando que era já presbítero.

2.       D. Gil na Ordem dos Pregadores

Como vimos, D. Gil viajou até Paris, onde, segundo alguns autores, terá cedido às seduções do demónio, que o terá levado a assinar um pacto com ele, que, após a conversão, recuperou. Consta ainda que a sua conversão tem lugar ainda em Paris e é consumada em Palência, onde entra na Ordem dos Pregadores, por via de uma conversão dada quando escutou uma pregação do Mestre Geral da mesma Ordem, Fr. Jordão de Saxónia. Diz-se que pregava com tal êxito que muitos estudantes e até professores deixaram o mundo e abraçaram a vida religiosa na mesma Ordem. É o caso, por exemplo, do Venerável Humberto de Romans, que escreveu que S. Fr. Gil fora seu companheiro de noviciado[3]. Pode concluir-se, portanto que S. Fr. Gil entrou na Ordem Dominicana, atraído pelo Beato Jordão de Saxónia conjuntamente com o Venerável Humberto de Romans pelos anos de 1224-1225, regressando a Portugal pelos anos de 1229.
Além da pregação do Beato Jordão de Saxónia podem ter levado S. Fr. Gil a entrar na Ordem a santidade dos filhos de S. Domingos, a eficácia da Palavra de Deus proclamada pelos pregadores, a consideração das vaidades deste mundo, das penas presentes e futuras, a devoção e amor a Nossa Senhora, entre muitos outros fatores.
Testemunham a sua santidade várias obras do seu tempo, algumas das quais autobiográficas, que, a pedido de Humberto de Romans terão sido compiladas por Gerard de Frachet, numa obra intitulada “Vitae Fratrum”, e que são no seu conjunto um eco de uma vida fervorosa dos primeiros seguidores de São Domingos de Gusmão de que fazia parte Frei Gil.
A propósito desse testemunho de santidade, vale a pena citar aqui a biografia de Frei Gil na página da internet da Ordem dos Pregadores, que remete para a obra “Vitae Fratrum”, acerca das virtudes de Frei Gil: «Como certo frade espanhol (Todos os autores o identificam com S. Fr. Gil. A palavra «espanhol» designava então todo o natural da Hispânia ou Península Ibérica), que depois foi de grande autoridade e virtude, queixava-se, durante o noviciado, do vestuário e da incomodidade do leito, pois no mundo havia vivido submergido na moleza, revelou humildemente ao seu confessor esta tentação e ele respondeu-lhe:
- Caríssimo irmão, lembrai-vos de que no mundo vivestes lascivamente, e, por conseguinte, para redimir aquele regalo e em remissão dos vossos pecados, sofrei agora este rigor não só pacientemente, senão que recebei-o com gosto, porque o Senhor estará a vosso lado.
Estas palavras gravaram-se tão profundamente em seu coração, que imediatamente cessou aquela tentação e aquelas coisas, que antes lhe pareciam penosas, tornaram-se-Ihe fáceis, considerando que, Por isso, conseguiria a remissão dos pecados».[4]
Em 1229, Frei Gil deixa Paris e regressa a Portugal, mudando-se para Santarém, procurando viver segundo o ensinamento do fundador, para que os frades dominicanos vivessem como os primeiros cristãos e como os Apóstolos, perseverando “unidos na doutrina, nas assembleias, na fracção do pão na oração. Tinham tudo em comum. Vendiam os seus bens dividiam-nos por todos segundo a necessidade de cada um. Unidos de coração, cativavam a simpatia de toda a gente. E o Senhor cada dia lhes juntava outros” (At 2, 42-47), aliando a este ensinamento bíblico a vivência da castidade, da pobreza e da obediência, mendigando o pão de cada dia, para si e para os pobres, praticando o jejum e a abstinência, guardando silêncio, seguindo a frase de São Domingos: «O silêncio é o Pai dos Pregadores». Além disso, cultivava um profundo amor à oração, quer privada quer comunitária, e vivia o estudo de forma “grave e exigente, a disciplina escolástica severa e rígida e as provas difíceis”.[5]
Frei Luís de Sousa, na obra História de São Domingos, afirma que, no convento de Santarém, onde vivia, São Frei Gil “era tal o silêncio (…) julgavam-na erma os que entravam de fora”.
As descrições que acabamos de ver servem para demostrar a santidade de vida de São Frei Gil que, associada aos conhecimentos teológicos que ele trouxe de Paris lhe conferiu a real capacidade de ser um autêntico frade pregador, difusor da Boa Nova e mestre do povo, onde quer que estivesse a pregar.
De 1233 a 1259, Frei Gil foi Superior Provincial da Ordem, durante dois mandatos, promovendo a observância religiosa, a pregação, o progresso da Ordem (tendo, inclusive, fundado vários conventos”) e a conversão dos muçulmanos, por obediência à bula de Alexandre IV que fazia esta exigência: “Dos Irmãos da tua Ordem que, pela religião que professam, andam devorados de zelo, decretamos que envieis alguns aos povos que ignoram a Cristo”.
Esta intensa actividade e os muitos trabalhos que levou ao longo da vida cansou-o de tal forma que acabou por deixar o lugar de provincial, tendo depois disso recolhido ao convento de Santarém, onde ficou a viver os últimos tempos da sua vida terrena.
Na festa da Ascensão de 1265, a 14 de Maio do mesmo ano, estava rodeado dos seus confrades e foi-os consolando com espírito paterno. Antes de expirar, levantou as mãos aos céus e disse “Nas vossas mãos, Senhor, entrego o meu espírito.” Foram as suas últimas palavras.
Os restos mortais de São Frei Gil foram sepultados numa humilde sepultura monástica mas, seis anos após a sua morte, Dona Joana Dias, Senhora de Atouguia e parenta de Frei Gil, custeou as despesas para um túmulo melhor, no interior do convento de Santarém, numa das capelas.
O túmulo de Frei Gil tornou-se local de romaria, e, por sua intercessão e pela virtude das suas relíquias se conta haver sido operados muitos e singulares milagres, o que fez com que desde cedo Frei Gil de Santarém fosse venerado como santo.
Sabemos que, logo no final do século XIII ou no princípio do século XIV, um frade dominicano de Santarém escreveu uma biografia de Frei Gil que se perdeu. Contudo, essa tal biografia terá servido de base às biografias manuscritas por Frei Baltazar de S. João em 1537 e por  André de Resende (1498-1573).
Outras biografias e hagiografias foram depois escritas, baseadas nestas, nomeadamente aquela que foi incluída por Frei Luis de Sousa (1555-1632) numa obra monumental a que deu o nome de História de S. Domingos.
A mais importante, contudo, é sem dúvida a de André de Resende em forma de diálogo, que antes de ser impressa em 1586, em Paris, foi editada por António de Sena e Estêvão de Sampaio. Chama-se Conuersio miranda D. Aegidii Lusitani, Doctoris Parisiensis, ordinis Praedicatorum.
A vida e a legenda do Beato Frei Gil foi retomada e romantizada em várias obras literárias dos grandes autores portugueses, de António Feliciano de Castilho a Camilo Castelo Branco, passando por Almeida Garrett, António Sardinha, Eça de Queirós, ou ainda Teófilo Braga e Correia de Oliveira.
Como se disse acima, o Beato Frei Gil foi sepultado no Convento de S. Domingos, em Santarém, tendo aí mudado de lugar em 1610, aquando de grandes obras que se realizaram no Convento. Em 1834, foram extintas as Ordens Religiosas e e os restos mortais de Frei Gil foram levados em procissão para o Convento das religiosas de S. Domingos-das-Donas. Os restos mortais foram confiados pelas freiras ao Marquês de Penalva que os teve primeiro na capela de sua casa, em Lisboa e depois na Capela da Quinta das Lapas, em Torres Vedras. Foram depois para a Igreja da Pena, em Lisboa e daí para a Sé de Santarém em 1991-1992. Outras relíquias do corpo estão ainda na Capela de S. Frei Gil, em Vouzela e na Igreja de S. Domingos dos Irlandeses, no Murtal – Estoril. 
 A memória litúrgica de São Frei Gil celebra-se a 15 de Maio de cada ano.

3.      Escritos de Frei Gil de Santarém

Frei Gil deixou vários escritos, alguns desaparecidos, outros ainda tidos como autênticos quanto à autoria, dos quais o Livro de Naturas, ou ainda uma parte substancial do Vidas dos Irmãos, onde se lê: «Este episódio foi registado por Frei Gil de Portugal, que veio a ser Provincial da Espanha e foi muito considerado e distinguido entre todos pela sua santidade, autoridade e ciência. Era ele um destes viajantes» (IV parte, Cap. V, 6).[6]


Nota Conclusiva
Frei Gil de Santarém, venerado desde cedo, foi um exemplo de santidade, vivendo de forma exemplar a sua integração na Ordem dos Pregadores. Exímio pregador, soube comunicar com a própria vida a vivência da pobreza, da castidade e obediência, ao mesmo tempo que os seus conhecimentos de teologia o fizeram sair ao encontro das gentes do seu tempo, o que contribuiu, certamente, para as romarias que desde cedo se faziam ao seu túmulo, fazendo frequentemente de Santarém, paragem obrigatória para os romeiros de Santiago de Compostela.
  
Bibliografia:
João, F. B. (1982). A vida do bem-aventurado frei Gil de Santarém. Coimbra: Gráfica de Coimbra.
Matos, M. C. (1991). São Frei Gil: do scritorium universitário de Coimbra e de Paris ao túmulo escalabitano. Lisboa: Associação dos Arqueólogos portugueses.
Pinto, A. J. (1903). S. Frei Gil: notas históricas. Lisboa: António Maria Pereira.
Província Portuguesa da Ordem de São Domingos. (22 de 05 de 2013). Frei GIl de Santarém. Obtido de Site da Província Portuguesa da Ordem de São Domingos: http://dominicanos.pmeevolution.com/index.asp?art=6603



[1] (Província Portuguesa da Ordem de São Domingos, 2013)
[2] (João, 1982)
[3] (João, 1982)
[4]  (Província Portuguesa da Ordem de São Domingos, 2013)
[5]  (Pinto, 1903)
[6]  (Matos, 1991)

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