quinta-feira, 30 de maio de 2013

Sopro Leve

Para ouvir na playlist... Ali em Baixo... É só procurar...

“Uma noite eu tive um sonho .Sonhei que estava a caminhar na praia com o Senhor, e através do céu, passavam cenas da minha vida. Para cada cena que se passava, percebi que eram deixadas dois pares de pegadas na areia: um era meu e outro era do Senhor.
Quando a última cena da minha vida passou diante de nós, olhei para trás, para as pegadas na areia, e notei que muitas vezes no caminho da vida havia apenas um par de pegadas.
Notei também que isto aconteceu nos momentos mais difíceis e angustiantes da minha vida. Isso aborreceu-me. Então perguntei ao Senhor:
- Senhor, Tu me disseste que uma vez que resolvi te seguir, Tu andarias sempre comigo, em todo o meu caminho, mas notei que durante as maiores tributações da minha vida, havia apenas um par de pegadas na areia. Não compreendo porque nas horas em que necessitava de ti, tu me deixaste…
O Senhor respondeu:
- Meu querido filho, Eu amo-te e jamais te deixaria nas horas de maior prova e sofrimento. Quando viste na areia apenas um par de pegadas, foi exactamente aí, que Eu peguei em ti ao colo...”

Espanta-me sempre a forma como Deus se manifesta e o momento em que se manifesta. Quando releio o texto das Pegadas na Areia, não posso deixar de meditar nas última passagem... "Eu peguei em ti ao colo..." É muito por aí... Sim, o Senhor pegou em mim ao colo sempre que eu precisei, o Senhor esteve constantemente comigo e nunca me deixou pendurado... E mesmo que eu quisesse seguir o meu caminho, se eu quisesse fugir dele, se eu o quisesse negar, eu sei que Ele deixaria, mas continuaria vigilante, à distância. Porque isso é um Pai.

Quando uma criança começa a andar, primeiro, anda agarrada aos dedos do pai ou da mãe. E depois, vai largando, dá um ou outro passinho, meio torto, cai... Mas estão lá duas mãos que geralmente impedem uma queda real... Vi muitas crianças a fazer isto, ajudei algumas nisso... Sou filho de uma ama...

A beleza desse pai que ensina a criança a andar funciona para mim como uma projecção de Deus que me ensina hoje, a mim, a dar os passos. Sempre de mãos prontas a agarrar-me, sempre vigilante às minhas quedas, sempre pronto a correr para me amparar... Mesmo que eu esteja naquela fase do puto adolescente que se acha adulto e já queira fazer por si, sinto Deus a deixar andar, meio preocupado, mas vigilante... Olho vivo e pé ligeiro para o puto não se esticar... E se se estica, tem de ouvir, tem de ser...

Uma vez, disseram-me que no Seminário a única pessoa que me poderia desiludir seria eu próprio... É verdade... As minhas infidelidades e a minha imaturidade magoam-me a mim, desiludem-me a mim... Chego muitas vezes a perguntar-me se isto é para mim... Julguei muitas vezes que as certezas viriam com o tempo, mas com o tempo a única certeza é que só terei a certeza depois de estar com as mãos do meu Bispo na cabeça... É evidente que há um horizonte, é evidente que há um pano de fundo mas... Há sempre a porta destrancada e de fácil acesso onde Deus me dá a liberdade de decidir, de perceber, de aceitar que isto pode não ser para mim... 
Arrepia não é?

A vocação é um chamamento de Deus mas é sobretudo um eu que responde. E que responde com o concreto da sua vida, que diz sim ou não, que se instala ou desinstala... Não é mágico, é, pelo contrário, potencialmente muito real, tanto quanto verdadeiro for o testemunho, tanto quanto verdadeiro for o caminho feito... A vocação é dada a todos. Seja ela qual for. Mas é preciso escutar a Deus... Sentir esse sopro leve que vem de Deus. 

Mais, é preciso ir além do calor na alma que esse sopro nos concede. É preciso que o sopro leve nos transforme por dentro. Para que não corramos o risco de ser aquela terra pouco profunda e pedregosa (Mt 13,5), onde a semente de Deus cai e floresce mas depois seca precisamente porque a terra é pouco e pobre... Porque não tem onde ir buscar alimento...


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