Há dez anos, por volta desta hora, vestia o meu traje académico pela primeira vez. Com cuidado, nervoso. Era uma honra vestir aquele traje. O nó da gravata fora feito pelo meu avô... Estava comovido porque sabia que merecia vestir aquela batina, aquela capa, que à meia-noite seria traçada pelo padrinho... O ano de Caloiro acabava e sabia como devia usar a capa, onde a devia traçar ou pôr aos ombros... Ia descobrir os meus colegas de ano trajados... Meu Deus, como estávamos giros... Era uma sensação estranha mas ao mesmo tempo tão bela...
Coimbra, passaram dez anos... Trouxe segredos da cidade para a vida, mas as capas são de saudade... Porque passar por Coimbra é trazer uma marca indelével de alegria e loucura ingénua de que somos donos de um mundo só nosso que não mais acaba...
Coimbra marcou-me. Coimbra deixa-me saudades profundas. Em certa medida, e eu sei que muitos não me entenderão, mas gostava de recuar dez e de reviver os meus anos de estudante. Se calhar mudava algumas coisas, afinal, hoje vejo as coisas sob um prisma que não conseguia ver na altura. Mas se calhar também não mudaria assim tanta coisa... Somente aquilo que magoou ou prejudicou outras pessoas... Somente aquilo que hoje me afasta de pessoas de quem gosto e que queria ter a meu lado.
Se calhar sou sentimentalista demais. Mas foi Coimbra que me ensinou assim, com os seus fados, as suas inúmeras baladas da despedida... Foi a forma de amar Coimbra e de ela se entranhar na minha vida que me tornou no que sou, que me ensinou a amar... Afinal, Coimbra como que me gerou uma segunda vez, transformou-me definitivamente, sem que tenha bem caído na conta de que isso me estava a acontecer...

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