Há vidas que entram na nossa por vias que nunca imaginaríamos, vidas que nos fazem querer que o tempo voltasse atrás como que a impedir que determinadas coisas acontecessem, vidas que nos desgastam o pensamento a pensar que não podemos fazer nada excepto rezar e que, se não tivessem sido marcadas por um qualquer acontecimento doloroso ou dramático nem sequer teriam entrado na nossa...
Há vidas que nos fazem ver o quão importante é estar vivo e o quão bela a nossa é... e que nos mostram que, afinal, somos capazes de amar além do que pensamos ser capazes... Vidas que, a quilómetros das nossas, nos enchem de tristeza, mesmo quando, a priori, nada temos a ver com elas... Isso significa que algures em nós nasce o olhar de amor de Jesus sobre os outros... Que nos implica e nos faz querer mais deste mundo, mais dos outros e mais de nós, numa exigência salutar de alcançar a vida eterna...
Entre o Rodrigo que com 3 anos lutam contra o Cancro, o Marlon que foi morto numa Queima das Fitas, ou outras histórias que de um momento para o outro nos entram casa adentro, desculpe-me o leitor deste blog, mas digo, PORRA! Histórias de vida que nos marcam profundamente e que nos deixam a pensar. São vidas
levadas, arrancadas, eliminadas. O ser humano é o único animal que mata outro da mesma espécie por prazer. Sem instintos, apenas porque sim.
Manter a esperança em Deus afigura-se-me por isso como a única saída. Tenho de aprender a engolir sapos. A saber lidar com isto, que é próprio de quem é chamado a amar incondicionalmente. E amar dói. Noto-o cada vez mais, cada vez que me vejo implicado nesta sociedade de que faço parte, cada vez que reparo que tenho o mundo a meu cargo. Como tu. Como eles. Deus deixou-me essa tarefa quando me deu a vida. À medida que tomo consciência disso, magoo-me ainda mais porque reparo que não tenho a capacidade de muito. Queria curar o Rodrigo, queria voltar atrás no tempo e avisar o Marlon de que iriam disparar sobre ele se ele saísse naquela hora, queria ter saltado para a frente do carro que atropelou a criança de sete anos ontem em Leiria. Mas não posso. Não me cabe a mim ser o Super-Homem. Aliás, ele nem existe...
Então, só me resta mesmo aquela réstia de esperança que me prende a tudo... Aquela corda que já tentei largar mas que acabo por encontrar presa a mim de tal forma que não posso simplesmente cortá-la. Tenho de a assumir, de olhar para ela e de perceber que a minha fé (a tal corda) me deve levar a olhar para o céu, a puxar-me para o topo deste muro de pedra que estou a escalar rumo à Casa do Pai. É para aí que foi o Marlon, é para aí que vão os homens bons. Quero ir para lá. E ficar à porta até que todos os jovens com quem me cruzarei nesta vida tenham entrado. Só depois aceito entrar e fico descansado (a ideia é do padre Pio mas eu adopto-a que eu sei que ele não se importa).
O Padre José Tolentino Mendonça escreve num dos seus livros que "fomos feitos para olhar para as estrelas" mas a verdade é que passo a vida a olhar para o chão... Devo reconhecer que ando numa fase pessimista... Aguardo que ela passe. Eu sou um gajo feliz... Amo e faço o que quero... Foi um tipo chamado Agostinho que me-lo ensinou...
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