sexta-feira, 14 de novembro de 2014

Sou uma vela escolhida

Tem alguma graça a forma como vou aprendendo a anseiar estar no terreno. Há um descréscimo acentuado que vai sendo difícil de descer, uma vez que as pernas querem andar mais depressa do que o corpo sabe dever fazê-lo. E esse desejo encontra uma confirmação na vontade de me consumir de tal forma que só sinto o cansaço quando me sento no comboio ou no carro, de regresso ao monte onde Jesus me chama a estar com Ele. Costumo chamar-lhe feliz cansaço. Porque tenho a sensação de ter sido uma espécie de círio que diminui para que a luz do meu Pai se mantivesse acesa e, de certo modo, iluminasse aqueles com quem estive.
O que mais me espanta é a pobreza da vela que Deus escolheu para iluminar o Povo. Sou uma vela barata, de fraca qualidade, manchada pelo pecado. Mas mesmo assim, sou uma vela escolhida. Mesmo que desformado, mesmo que destruído pelo meu pecado, Deus continua a amar-me. A perdoar o meu pecado e a capacitar-me para ir além dele e poder ir ao encontro de outros. 
A beleza de servir é grande. E nela encontro a justificação para as opções que fiz e que tomei. Sair de mim, abandonar-me, entregar-me e reviver, a cada dia, apesar das dificuldades e infidelidades, a velha frase que me vai acompanhando desde o dia em que decidi entrar no seminário: "No dia em que me entreguei, alcancei a liberdade...".
A par destas, outras vêm caminhando comigo: "Omnia in Eo" (Tudo n'Ele, inspirado em S. Paulo, quando diz "De tudo sou capaz n'Aquele que me dá força). Ou outra ainda, "roubada" a um amigo sacerdote: "Os que semeiam em lágrimas, recolhem com alegria" (Sl 125). Frases que me recordam que apesar das dificuldades, o meu Pai está comigo e não me abandona. Se confiar n'Ele, se me entregar de verdade, hei-de ser capaz de tudo o que Ele me pedir e hei-de me alegrar quando constatar que fui fiel e quando, olhando para trás, verificar que há caminho feito, ainda que com muitos trambolhões.
Depois, há uma prece pequenina e meio tosca que Jesus me ensinou neste verão, quando estava ao serviço dos pequeninos de Deus: "Senhor, quiseste que viesse. Agora, faz a tua parte...". É a minha forma de S.O.S a Deus. A forma como lhe peço que me ajude, sem que, no entanto, isso signifique que fuja às minhas obrigações. Porque tenho consciência que quando falho a culpa é minha e só minha. Ele está. Eu nem sempre. Por isso confirmo o que me disseram um dia: "Aqui no seminário, o único que te vai desiludir és tu."
Há, neste caminho, uma ligação fortíssima com o texto das Pegadas na Areia, sobejamente conhecido. Há um caminho à Beira-Mar, com o olhar no Infinito de Deus, feito lado a lado com Jesus. E faz-me muito sentido aquela velha imagem de ser pegado ao colo por Jesus nos piores momentos. E o mais engraçado é que nem damos conta disso... 
Vale a pena pensar nisto.

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