sexta-feira, 19 de setembro de 2014

Fora da zona de conforto é que se dão os milagres…

Quando há cerca de três meses enviei um papel preenchido virtualmente, pensei que com sorte não seria chamado e que, pelo menos, tinha a consciência tranquila. Tinha decidido desafiar a minha irmã, pensando que talvez ela gostasse do projeto mas esperando em segredo que ela não pudesse ou quisesse ir. Seria, provavelmente, uma boa desculpa para não gastar tempo naquilo. E, gastando, só iria uma semana. Tinha-me jurado que não faria mais do que isso… Só que ela quis ir. E eu fui com ela porque não podia voltar atrás…
E depois chegou o mail. Uma pequena alteração de data, poucas informações a não ser o local e a hora de chegada e a informação de que teria de levar roupa a contar com um dia de praia fluvial. Fluvial? Ok. Pronto. Assumi que tinha corrido o risco e pensei que era só uma semana. Depois sobraria tempo para descansar e ter, de facto, férias, coisa que já há uns bons anos não deixava que acontecesse, dado estar sempre metido em mil e uma coisas.
No dia marcado, um bocadinho antes da hora marcada (como gosto), lá estava eu. Com o colega que me tinha desafiado e com a minha irmã. Numa casa cheia de estranhos, situação que me mostrava ser totalmente fora da zona de conforto. Mas quis entrar de cabeça. Quis poder dizer que tinha dado tudo. E mergulhei de cabeça naquela aventura. Saquei do bolso o melhor sorriso e aproximei-me da porta, sem saber o que se iria passar naquela casa, à porta da qual passara tantas vezes sem me aperceber do que se tratava.
A campainha tem um toque estridente. Pouco depois, aparece uma senhora, mais nova do que a minha mãe, que desde logo me inspira uma calma tremenda. Sorri. Muito. E manda o meu colega mostrar-me o meu quarto onde os meus companheiros da semana estão. “Se estiverem a dormir, acorda-os que já são horas”. Acorda-os? Será essa a primeira impressão que devo deixar aos rapazes que estarão comigo nesta aventura? “Senhor, Tu quiseste que viesse. Agora faz a Tua parte.” Esta prece improvisada iria acompanhar-me em muitas ocasiões: a primeira ida à casa de banho, a primeira refeição, a primeira dança, a primeira fralda… (e resultou!).
Cheguei ao quarto, entrei e, felizmente, os moços já estavam acordados. Soaram-me a simpáticos, um deles Conviva (o que facilitou a primeira conversa) e gerou-se uma empatia muito grande. Com as máscaras iniciais, um jogo seguro de quem quer controlar tudo. Seguiram-se a visita à casa, as primeiras tarefas, o primeiro almoço. Senti-me peixe a entrar no aquário. A bolha ia rebentando e eu ia-me atrevendo a nadar para pontos mais afastados, dando mais de mim. Já sem máscaras... Aqui não são precisas...
 Ao início da tarde, juntámo-nos em reunião de voluntários. Nomes. Nomes. Nomes. E ainda faltavam os meninos que chegariam por volta das 17h. “Senhor, Tu quiseste que viesse. Agora faz a Tua parte”. Percebi que a situação iria ser pior do que pensava. Falou-se em deficiência mental, em fraldas… Se a primeira não me incomodava, a segunda já mexia comigo. Tive medo. Não de mim mas da forma como as minhas limitações me colocariam diante dos olhos daqueles a quem Jesus me mandava. Percebi claramente que estava ali porque Cristo me pedia que crescesse um bocado… Bom, era só uma semana…
17h. Estamos todos na entrada e os jovens começam a chegar. A animação aumenta porque um voluntário chega e começa logo a festa. Nunca mais pararemos até ao fim dessa semana. Os jovens chegam, com os rostos manifestamente marcados pela doença. Cadeiras de rodas, trissomia 21, paralisias cerebrais… E eu, sem uma gota de pena. Tinha começado a perceber que aquela gente não eram coitadinhos. Eram gente com a dignidade da gente, com um ou outro problema mais ou menos sério mas com o mesmo direito a viver e a ser feliz que eu tenho. E porque haveria de ser diferente?

E a semana passou, entre risos, danças, canções, preces e partilhas. Ao segundo dia, resolvi que daria mais uma semana ou duas. Ao quarto já sabia que voltaria passadas duas semanas. No último chorei depois de me despedir. Porque vivi de Amor, alimentando-me dele e procurando fazer dele alimento da semana. Amor com A maiúsculo. Porque percebi que ali não tinha tido tempo para “ses” ou condicionalismos. Fiz o que tinha a fazer. Rezei o que tinha a rezar. Por Ele, com Ele e porque Ele quis. Chamo-me L., tenho 30 anos e sou Voluntário dos Amigos Únicos.  

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