E depois chegou o mail. Uma pequena alteração de data, poucas informações
a não ser o local e a hora de chegada e a informação de que teria de levar
roupa a contar com um dia de praia fluvial. Fluvial? Ok. Pronto. Assumi que
tinha corrido o risco e pensei que era só uma semana. Depois sobraria tempo
para descansar e ter, de facto, férias, coisa que já há uns bons anos não
deixava que acontecesse, dado estar sempre metido em mil e uma coisas.
No dia marcado, um bocadinho antes da hora marcada (como gosto), lá
estava eu. Com o colega que me tinha desafiado e com a minha irmã. Numa casa
cheia de estranhos, situação que me mostrava ser totalmente fora da zona de
conforto. Mas quis entrar de cabeça. Quis poder dizer que tinha dado tudo. E
mergulhei de cabeça naquela aventura. Saquei do bolso o melhor sorriso e
aproximei-me da porta, sem saber o que se iria passar naquela casa, à porta da
qual passara tantas vezes sem me aperceber do que se tratava.
A campainha tem um toque estridente. Pouco depois, aparece uma senhora,
mais nova do que a minha mãe, que desde logo me inspira uma calma tremenda.
Sorri. Muito. E manda o meu colega mostrar-me o meu quarto onde os meus
companheiros da semana estão. “Se estiverem a dormir, acorda-os que já são
horas”. Acorda-os? Será essa a primeira impressão que devo deixar aos rapazes
que estarão comigo nesta aventura? “Senhor, Tu quiseste que viesse. Agora faz a
Tua parte.” Esta prece improvisada iria acompanhar-me em muitas ocasiões: a
primeira ida à casa de banho, a primeira refeição, a primeira dança, a primeira
fralda… (e resultou!).
Cheguei ao quarto, entrei e, felizmente, os moços já estavam acordados.
Soaram-me a simpáticos, um deles Conviva (o que facilitou a primeira conversa)
e gerou-se uma empatia muito grande. Com as máscaras iniciais, um jogo seguro
de quem quer controlar tudo. Seguiram-se a visita à casa, as primeiras tarefas,
o primeiro almoço. Senti-me peixe a entrar no aquário. A bolha ia rebentando e
eu ia-me atrevendo a nadar para pontos mais afastados, dando mais de mim. Já sem máscaras... Aqui não são precisas...
Ao início da tarde, juntámo-nos em reunião de voluntários. Nomes. Nomes.
Nomes. E ainda faltavam os meninos que chegariam por volta das 17h. “Senhor, Tu
quiseste que viesse. Agora faz a Tua parte”. Percebi que a situação iria ser
pior do que pensava. Falou-se em deficiência mental, em fraldas… Se a primeira
não me incomodava, a segunda já mexia comigo. Tive medo. Não de mim mas da
forma como as minhas limitações me colocariam diante dos olhos daqueles a quem
Jesus me mandava. Percebi claramente que estava ali porque Cristo me pedia que
crescesse um bocado… Bom, era só uma semana…
17h. Estamos todos na entrada e os jovens começam a chegar. A animação
aumenta porque um voluntário chega e começa logo a festa. Nunca mais pararemos
até ao fim dessa semana. Os jovens chegam, com os rostos manifestamente marcados
pela doença. Cadeiras de rodas, trissomia 21, paralisias cerebrais… E eu, sem
uma gota de pena. Tinha começado a perceber que aquela gente não eram
coitadinhos. Eram gente com a dignidade da gente, com um ou outro problema mais
ou menos sério mas com o mesmo direito a viver e a ser feliz que eu tenho. E
porque haveria de ser diferente?
E a semana passou, entre risos, danças, canções, preces e partilhas. Ao
segundo dia, resolvi que daria mais uma semana ou duas. Ao quarto já sabia que
voltaria passadas duas semanas. No último chorei depois de me despedir. Porque
vivi de Amor, alimentando-me dele e procurando fazer dele alimento da semana.
Amor com A maiúsculo. Porque percebi que ali não tinha tido tempo para “ses” ou
condicionalismos. Fiz o que tinha a fazer. Rezei o que tinha a rezar. Por Ele,
com Ele e porque Ele quis. Chamo-me L., tenho 30 anos e sou Voluntário dos
Amigos Únicos.
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