domingo, 31 de março de 2013

A minha meditação de Sexta-Feira Santa 2013


“Um grande silêncio reina hoje sobre a terra; um grande silêncio e uma grande solidão.” É assim que começa uma antiga homilia de Sábado Santo, que a Liturgia das Horas, oração por excelência da Igreja, recupera no Ofício de Leituras de Sábado Santo. E é sem dúvida assim que me ressinto hoje, mergulhado num grande silêncio, num silêncio que me faz sentir na pele a solidão de uma ausência: Jesus morreu. Revivo este dia a tentar colocar-me no lugar próprio de um discípulo que ainda não percebeu tudo… Tantos anos a seguir Jesus e eis que, de um momento para o outro, o discurso obscurece-se, coisas que não entende me são ditas, os acontecimentos precipitam-se e o Mestre morre, pregado na Cruz, como um malfeitor dos piores… E o vazio instala-se…
A cada Tríduo, a história repete-se, os mesmos acontecimentos sucedem-se em gestos repetidos, em palavras que se atualizam ainda que sendo sempre as mesmas, ano após ano: “Décima-segunda estação: Jesus morre na Cruz”, “ Jesus expirou”. E o vazio toma o lugar de quaisquer que sejam as palavras que oiça… Deixo de ser capaz de raciocinar, penso em pessoas em dificuldade, peço por elas, vou ao encontro de pessoas que nos meus a priori são deixadas de lado… É a minha maneira de rezar… Não tanto por palavras mas mais por silêncios… Os mesmos que reinam hoje sobre a terra, onde há crentes à espera da feliz notícia: “Aleluia! Jesus ressuscitou!”
Num mundo onde o silêncio é tabu e onde o ruído preenche o espaço e o tempo de toda a gente, este silêncio instalado é avassalador. Imobiliza. Contraposto ao silêncio de que o mundo só pensa em fugir, o silêncio da ausência de Jesus começa bem antes da sua morte. Na verdade, Jesus, Palavra tornada carne faz do silêncio uma arma poderosa, que chega a desinstalar Pôncio Pilatos: “Não me dizes nada?” Não. Jesus não diz nada na maior parte do seu processo. Nem há registos de grandes falas de Jesus a não ser por amor ao longo quer do caminho para o calvário quer na cruz. Poucas palavras como que para que os planos de Deus não fiquem gorados nem o rumo da história se altere.
Por outro lado, é fácil imaginar o silêncio dos discípulos e de Maria. Mãe do silêncio, ela também é de poucas palavras perante o sangrentíssimo espetáculo a que assiste. Como fizera no presépio, Maria guarda no coração, outrora alegre, hoje tão moribundo como seu Filho, o que vai vendo, sentindo e pensando… Tudo está consumado, a espada atravessou realmente o seu coração. E o de João, de Pedro, de Tiago, de Bartolomeu, o meu e o teu, que hoje, em silêncio, reviveu a Paixão de Jesus sem ainda a ter completamente entendido.
São João Crisóstomo diz que hoje é dia de alegria porque conhecemos o desfecho desta história, porque sabemos que Jesus ressuscitou para nossa Salvação e que e morte foi vencida! Como um fogo vivo que se acende em nós, uma imensa felicidade… Porque Tu regressaste… Pois sim, é verdade… Mas antes foste embora, não sem sofrer. E por mim. E disso, Senhor, eu não o posso esquecer!

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