Passaram-se alguns dias desde que
soube que tiveste o acidente. Passaram-se alguns dias que morreste e ainda não
consegui entender como foi possível que tu tivesses tido o azar que tiveste.
Digerir a força desse facto é um peso desgraçado...
Repassei em revista fotos que
temos juntos e penso na vida que tiveste. Demasiada curta para ser completa mas
ao mesmo tempo feliz dentro das limitações que tu tinhas. Nasceste com
problemas que comprometiam, à partida, que levasses uma vida tida como
“normal”. Limitado em muitos aspectos, mas ao mesmo tempo provida daquele
carinho que tantos tínhamos por ti, por aquilo que eras: generoso, alegre,
entusiasta com aquilo em que te metias, ultrapassando desse modo as várias
barreiras que a vida te tinha imposto com os problemas com que vivias.
A onda de tristeza que vai
pairando no ar da nossa terra mostra o quanto tu eras querido por estas gentes.
Estavas em todas, deixaste marcas por muitos sítios, escreveste memórias em
tantos corações. E hoje deixas a memória de um rapaz feliz, daquela pessoa de
quem toda a gente gostava. Comentei já hoje que penso que eras feliz, apesar
dos apesares que a vida te deu. Eras feliz porque no fundo ias além de ti. Além
dos teus limites, contrariando uma boa parte dos teus limites. Foste Tau, foste
animador, foste escuteiro, foste festeiro, foste acólito, foste peregrino de
Santiago, animador de Campos de Férias. Foste tu mesmo, sempre com a mesma
disponibilidade e a mesma energia, com o mesmo entusiasmo e a mesma boa
disposição.
Hoje, mais do que chorar a morte
de um amigo, apetece-me dar Graças a Deus pela tua vida, pelos anos que
passaste neste Pedrógão que hoje te chora e onde deixas um vazio tremendo.
Sabes, vamos sentir a tua falta! Não porque julguemos que a vida termina mas
porque Deus se manifestou em ti de tantas formas que me parece que tu te
tornaste, no preciso momento em que nos deixas, o nosso Anjo da Guarda. Aquele
que está connosco, incondicionalmente. Que do Céu olha por nós, nos protege e
pede a Deus por esta terra que foi tua. Que é tua. Que será sempre tua e onde
deixas a marca indelével da saudade que nos prende neste abraço que te mando e
que sei retribuído. Porque, amigo Arlindo, tu não morreste. Foste simplesmente
ter com Jesus, aquele Jesus em quem acreditavas e que hoje encontras, que do
Céu neste momento nos conforta, contigo, por não mais podermos viver a tua
presença física.
Sabes amigo, vivemos de “até jás”
e “até logos” que nunca pensamos serem definitivos. Porque nunca esperamos
verdadeiramente por estes momentos que, embora aconteçam, parece que só
acontecem aos outros. Mas acontecem-nos a nós e de repente parece que nos foge
o chão debaixo dos pés. Talvez nos falte a fé para acreditar que estás
realmente melhor onde estás agora. Talvez a dor de não mais te ter nos connosco
sufoque demasiado para podermos sequer conceber que estás feliz. Mas eu sei que
estás connosco, que estás bem, e que, aqui mesmo ao nosso lado, nos dás força
para continuarmos a lutar contra a tristeza, porque tu, Arlindo, és um rapaz
com uma garra enorme, que tudo faz para seres feliz.
Junto de Deus, descansa em paz. E
vai olhando por este Pedrógão no momento em que se prepara para se separar de
ti. Não te esqueças de nós Arlindo, porque nós não nos esqueceremos de ti.
Nunca. Até já amigo, encontramo-nos no céu, quando tivermos a mesma pureza de
coração que sei que tinhas quando lá chegaste. Um abraço enorme, de quem tem já
saudades imensas de ti. Até sempre!

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